{"id":329,"date":"2021-07-02T15:49:59","date_gmt":"2021-07-02T15:49:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.compadd.ufpr.br\/?p=329"},"modified":"2021-09-15T18:39:58","modified_gmt":"2021-09-15T18:39:58","slug":"por-um-novo-conceito-de-democracia-digital-desafios-presentes-e-futuros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.compadd.ufpr.br\/?p=329","title":{"rendered":"Por um novo conceito de Democracia Digital: desafios presentes e futuros"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-small-font-size\">No <a href=\"https:\/\/christianafreitas.com\/inscricao-iii-simposio\/\">III Simp\u00f3sio Internacional em Inova\u00e7\u00e3o e Governan\u00e7a Digital<\/a>, fiz uma <a href=\"https:\/\/speakerdeck.com\/cardososampaio\/o-retorno-da-democracia-digital-por-um-novo-conceito\">apresenta\u00e7\u00e3o<\/a> tentando abordar o futuro do projeto e do conceito da democracia digital e aqui gostaria de fazer um resumo da mesma. Para termos did\u00e1ticos e de entretenimento, a fala foi inteira baseada nos filmes de Star Wars e boa parte da minha premissa foi responder: estaria a democracia digital destru\u00edda em um momento de tamanho dom\u00ednio do <em>Dark Side<\/em> (Lado Sombrio) da For\u00e7a?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">A pergunta, na verdade, me persegue desde a publica\u00e7\u00e3o do texto \u201cA Comunica\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica depois do Golpe \u2013 Notas para uma agenda de pesquisa\u201d por Afonso de Albuquerque (2018) na revista Compol\u00edtica. Resumidamente, ap\u00f3s o golpe que tirou Dilma Rousseff do poder, Albuquerque ressalta que faltou senso cr\u00edtico aos pesquisadores de comunica\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica, especialmente aqueles que trabalham com institui\u00e7\u00f5es de accountability, como a m\u00eddia e \u00f3rg\u00e3os do judici\u00e1rio, que acabaram sendo, na melhor das hip\u00f3teses, c\u00famplices do golpe, sen\u00e3o apoiadores. S\u00f3 que Albuquerque destaca especialmente os pesquisadores da democracia digital (ou e-democracia), denotando:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u201cUm vislumbre da publica\u00e7\u00e3o recente e das apresenta\u00e7\u00f5es de trabalhos em eventos acad\u00eamicos revela uma escassez de trabalhos que considerem a atua\u00e7\u00e3o da imprensa ou de outras institui\u00e7\u00f5es da \u201crede de <em>accountability<\/em>\u201d sob uma perspectiva cr\u00edtica [&#8230;]. As perguntas que se seguem s\u00e3o: <strong>em que medida essa agenda continua a fazer sentido <\/strong>quando a democracia enfrenta uma crise t\u00e3o s\u00e9ria? <strong>\u00c9 sensato esperar que uma e-democracia possa existir<\/strong> na aus\u00eancia da democracia propriamente dita?\u201d (Albuquerque, 2018, p. 173, grifos meus).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Em suma, a agenda da democracia digital faria algum sentido se as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas est\u00e3o amea\u00e7adas? E eu continuei a minha apresenta\u00e7\u00e3o evidenciando que o dom\u00ednio do Dark Side parece ter apenas crescido em termos globais, a exemplo das elei\u00e7\u00f5es de Trump nos EUA; Brexit; Ascen\u00e7\u00e3o populista e extremista; Aumento da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica; Prolifera\u00e7\u00e3o do discurso de \u00f3dio; Difus\u00e3o das fake news; Uso de dados pessoais para com\u00e9rcio e vigil\u00e2ncia. E no plano local, as elei\u00e7\u00f5es de Bolsonaro, as diferentes crises institucionais, o negacionismo de mediadores epist\u00eamicos (jornalismo, ci\u00eancia etc.). E, em quase todos esses acontecimentos, havia not\u00e1veis evid\u00eancias de usos n\u00e3o democr\u00e1ticos dos meios digitais, incluindo a manipula\u00e7\u00e3o e a distor\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, notadamente nesses momentos de grandes pleitos eleitorais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Brincando com o t\u00edtulo do epis\u00f3dio VII de Star Wars, eu argumentei que \u201cThe Force Awakens\u201d (A For\u00e7a desperta). Ou seja, apesar de estarmos realmente em um per\u00edodo de grandes trevas, isso n\u00e3o significa que n\u00e3o houve diversos tipos de rea\u00e7\u00f5es do Lado da Luz (<em>Light Side<\/em>), ou ainda, das for\u00e7as democr\u00e1ticas. Notadamente, a suposta influ\u00eancia russa nas elei\u00e7\u00f5es estadunidenses de 2016, o esc\u00e2ndalo da Cambridge Analytica no caso do Brexit e a prolifera\u00e7\u00e3o geral de fake News nesses dois pleitos geraram repercuss\u00f5es mundiais. Nos Estados Unidos, sede das grandes corpora\u00e7\u00f5es de m\u00eddia social, o pr\u00f3prio Senado chamou CEOs e diretores dessas empresas para virem se explicar e apontar o que est\u00e3o fazendo em rela\u00e7\u00e3o aos dados pessoais e \u00e0 a privacidade das pessoas e para combater fake News e o discurso do \u00f3dio. A Uni\u00e3o Europeia tamb\u00e9m foi pioneira em apresentar propostas de corregula\u00e7\u00e3o das plataformas de m\u00eddia social, que inclu\u00edssem governo, sociedade civil, agentes midi\u00e1ticos e atores das pr\u00f3prias empresas para controlar a prolifera\u00e7\u00e3o da desinforma\u00e7\u00e3o. Em suma, governos e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil elevaram o tom e aumentaram a press\u00e3o sobre as plataformas por maior transpar\u00eancia e regula\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica. Tornou-se algo de profundo debate em v\u00e1rios pa\u00edses, especialmente em termos de haver ou n\u00e3o regula\u00e7\u00f5es na forma de leis. A ind\u00fastria da informa\u00e7\u00e3o, notadamente o jornalismo, tamb\u00e9m reagiu aumentando e promovendo iniciativas de fact-checking, buscando desmentir as fake News que circulam nos diferentes ambientes digitais ao mesmo tempo que tentam voltar a se posicionar como mediadores centrais da esfera p\u00fablica contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Em seguida, introduzi a ideia de um \u201cdist\u00farbio na For\u00e7a\u201d, fala cl\u00e1ssica de v\u00e1rios filmes de Star Wars que precede algum grande acontecimento nos filmes. No caso, estava me referindo \u00e0 pandemia mundial da Covid-19. Resumidamente, tratei como a necessidade do isolamento social para impedir a prolifera\u00e7\u00e3o do v\u00edrus nos obrigou a realizar atividades remota e digitalmente, incluindo duas das quest\u00f5es mais importantes de nossas vidas: trabalho e educa\u00e7\u00e3o. Em suma, acelerou ainda mais a import\u00e2ncia do on-line na vida de todas as pessoas, empresas e institui\u00e7\u00f5es, inclusive as pol\u00edticas. Dadas as novas necessidades, burocratas (funcion\u00e1rios p\u00fablicos e afins) tiveram que rapidamente construir sistemas para reuni\u00f5es e sess\u00f5es online em c\u00e2maras, assembleias legislativas e no planalto, assim como em prefeituras, governos do estado e em toda a federa\u00e7\u00e3o. Os pol\u00edticos profissionais, por sua vez, tamb\u00e9m tiveram de se adaptar rapidamente a tais tecnologias. A falta da discuss\u00e3o e dos acordos presenciais teve impactos diretos na pr\u00f3pria forma de fazer pol\u00edtica. E, em minha vis\u00e3o, isso provavelmente ter\u00e1 um efeito em diminuir a resist\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es e dos pr\u00f3prios pol\u00edticos para mais usos de tecnologias on-line em suas rotinas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">A pandemia tamb\u00e9m trouxe uma s\u00e9rie de outras consequ\u00eancias para a pol\u00edtica e para o sistema midi\u00e1tico. A ind\u00fastria da informa\u00e7\u00e3o e diversos agentes da sociedade civil passaram a demandar ainda mais por transpar\u00eancia e por atualiza\u00e7\u00e3o constante dos dados relacionados \u00e0 doen\u00e7a (n\u00famero de infectados, n\u00famero de \u00f3bitos, porcentagem de ocupa\u00e7\u00e3o de leitos, gastos direcionados \u00e0 abertura de leitos de hospitais e investimentos em sa\u00fade etc.). N\u00e3o obstante, essa demanda por informa\u00e7\u00e3o de qualidade por diferentes p\u00fablicos n\u00e3o teve um impacto negativo no discurso da desinforma\u00e7\u00e3o. Na verdade, este aumentou consideravelmente com a pandemia. Tomando apenas o exemplo do Brasil, a circula\u00e7\u00e3o de fake News sobre a origem do v\u00edrus, os supostos (e mentirosos) tratamentos precoces, a origem e efic\u00e1cia das vacinas, al\u00e9m de discursos conspirat\u00f3rios &nbsp;sobre os verdadeiros culpados pela falta de vacinas no pa\u00eds e afins.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Dado esse contexto, eu come\u00e7o a revisar o que a pr\u00f3pria literatura acad\u00eamica tem apontado como os desafios a serem enfrentados pelo campo da democracia digital e mesmo da pol\u00edtica digital. Com base em alguns autores de ponta, eu resumo que os desafios e limites apontados da pesquisa em pol\u00edtica digital (Anstead, 2020; Chadwick, 2020; Dutton, 2020; Miller, Vaccari, 2020, grifos meus), resumidamente, s\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"has-small-font-size\"><li>Foco excessivo em solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas (e.g. AI, fake news);<\/li><li>Pouco foco em quest\u00f5es de contexto (sociol\u00f3gicas e pol\u00edticas)<\/li><li><strong>Pouco foco no novo sistema h\u00edbrido dos <em>media <\/em>(e.g., converg\u00eancia);<\/strong><\/li><li>Pouco foco no papel das m\u00eddias tradicionais nos atuais problemas;<\/li><li><strong>Muito foco apenas nos casos de sucesso;<\/strong><\/li><li>Muita expectativa de racionalidade e pouco foco nas emo\u00e7\u00f5es;<\/li><li><strong>Pouco foco no <em>dark side <\/em>da internet;<\/strong><\/li><li><strong>Evitar ressoar e refor\u00e7ar o discurso da crise e a culpa da internet;<\/strong><\/li><li>Pensar nos efeitos do que vivemos no longo prazo tamb\u00e9m.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">E pretendo responder a algum desses pontos posteriormente, mas creio que a revis\u00e3o sistem\u00e1tica da literatura realizada por Kathleen Kuehn e Leon Salter (2020) resume elegantemente as quatro grandes \u201camea\u00e7as da internet sobre a democracia\u201d, vulgo: fake news; filtros bolha e c\u00e2maras de eco; discurso do \u00f3dio e vigil\u00e2ncia. Os autores acreditam que destas quatro amea\u00e7as surgir\u00e3o tr\u00eas tipos principais de solu\u00e7\u00f5es: tecnol\u00f3gicas; regulat\u00f3rias e culturais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Com base especialmente nos dois \u00faltimos autores, mas tendo todos os anteriores em vista, eu defendo que devemos ter \u201cUma nova esperan\u00e7a\u201d (t\u00edtulo tanto do Epis\u00f3dio IV de Star Wars quanto do artigo de Gastil e Davies, 2020, que inspirou a minha fala). Em outras palavras, ao contr\u00e1rio do afirmado por Albuquerque, a democracia digital n\u00e3o est\u00e1 morta e \u00e9 um tema central de nossas atuais democracias. Resumindo o que foi encontrado por Kuehn e Salter, eu argumento que o campo tender\u00e1 a tratar e ser pautado notadamente por dois temas, nomeadamente <strong>1) a integridade da esfera p\u00fablica<\/strong> e <strong>2) a governan\u00e7a da internet e a busca por regula\u00e7\u00f5es do ciberespa\u00e7o<\/strong>. Essas duas quest\u00f5es, em minha defesa, sempre dever\u00e3o estar pautadas por um terceiro ponto secreto que \u00e9 um <strong>3) uso amb\u00edguo pelo governo e sociedade civil das atuais plataformas<\/strong> de m\u00eddias sociais, enquanto se buscam alternativas a elas. &nbsp;Tratarei das tr\u00eas tem\u00e1ticas e ao fim apontarei quest\u00f5es que considero que s\u00e3o importantes para a pr\u00f3pria pesquisa no campo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Em vez de matar a democracia digital, devemos \u00e9 justamente reconhecer como a esfera p\u00fablica no sistema h\u00edbrido dos media (Chadwick, 2017) \u00e9 cada vez mais intercortada por eventos e fen\u00f4menos online. N\u00e3o \u00e9 que protestos de rua, lobbys, advocacy, acordos de gabinete perderam a sua import\u00e2ncia, por\u00e9m \u00e9 reconhecer que agora tamb\u00e9m h\u00e1 \u201cavenidas digitais\u201d nas quais as disputas acontecem. Para a palestra, eu coloquei uma s\u00e9rie de perguntas relacionadas a esse ponto:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"has-small-font-size\"><li>Quem tem mais seguidores? Quem tem maior influ\u00eancia?<\/li><li>Qual lado \u201cvenceu\u201d na disputa da pol\u00eamica do dia?<\/li><li>Como as organiza\u00e7\u00f5es c\u00edvicas se organizam? Como os diferentes grupos minorit\u00e1rios constroem parte de suas identidades online? Como conseguem visibilidade para suas pautas? Como sair das redes para as ruas?<\/li><li>Como diria Wilson Gomes, qual o papel dos influenciadores digitais (e.g. youtubers) na atual esfera p\u00fablica? Tratam-se dos novos intelectuais p\u00fablicos ou s\u00e3o apenas celebridades? Ou ainda um h\u00edbrido?<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Portanto, boa parte da discuss\u00e3o sobre a democracia digital no futuro pr\u00f3ximo, acredito eu, ser\u00e1 sobre (ou ser\u00e1 pautada pela) integridade da esfera p\u00fablica. Na pr\u00e1tica, todos os itens abaixo tratam de quest\u00f5es que tendem a contaminar, distorcer ou mesmo destruir o debate p\u00fablico e s\u00e3o, portanto, merecedores de muita aten\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"has-small-font-size\"><li>Algoritmos preferem nos mostrar aquilo que gostamos;<\/li><li>Filtros-bolha, c\u00e2maras de eco (n\u00e3o \u00e9 exposto a argumentos contr\u00e1rios);<\/li><li>Polariza\u00e7\u00e3o, crescimento do populismo e discursos extremistas;<\/li><li>Prolifera\u00e7\u00e3o do discurso de \u00f3dio;<\/li><li>Normaliza\u00e7\u00e3o de atitudes belicosas (ofensas, ataques virtuais, cancelamentos etc.)<\/li><li>Uso de bots e outras estrat\u00e9gias para manipular\/distorcer o debate digital;<\/li><li>Viraliza\u00e7\u00e3o extrema de fake News, especialmente em momentos pol\u00edticos decisivos.<\/li><li>Estrat\u00e9gia de guerra para destruir o outro lado (Gomes, Dourado, 2011).<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">E essa discuss\u00e3o sobre a integridade da esfera p\u00fablica sempre estar\u00e1 influenciada pela defesa da liberdade de express\u00e3o, um dos direitos mais b\u00e1sicos das democracias liberais. N\u00e3o obstante, argumento que tal direito foi sequestrado e agora \u00e9 utilizado por grupos de extrema-direita para impedir que qualquer regula\u00e7\u00e3o seja aprovada e que o discurso da desinforma\u00e7\u00e3o e do \u00f3dio continuem a fluir livremente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Tal compreens\u00e3o me leva ao meu segundo ponto que acredito que seja vital para as pr\u00f3ximas discuss\u00f5es sobre democracia digital, vulgo Governan\u00e7a da Internet e a busca por regula\u00e7\u00f5es do ciberespa\u00e7o. A governan\u00e7a da internet, obviamente, sempre foi um tema central do debate sobre a democracia digital, por\u00e9m agora parece haver um movimento internacional, uma press\u00e3o global para que tais regula\u00e7\u00f5es aconte\u00e7am. Seja pela prolifera\u00e7\u00e3o das fake news, seja pelo seu suposto efeito nas elei\u00e7\u00f5es, seja pela repercuss\u00e3o internacional, h\u00e1 um grande \u00edmpeto governamental por regular ou as plataformas de m\u00eddias sociais ou regras que afetem elei\u00e7\u00f5es ou atividades pol\u00edticas. A pr\u00f3pria quest\u00e3o dos monop\u00f3lios exercidos por algumas dessas grandes corpora\u00e7\u00f5es \u00e9 tema de debate constante nos Estados Unidos e Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Por sua vez, a sociedade civil n\u00e3o \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 regula\u00e7\u00e3o, mas faz um esfor\u00e7o grande para garantir que as novas legisla\u00e7\u00f5es n\u00e3o possam ser voltadas contra elas, afinal uma legisla\u00e7\u00e3o equivocada pode dar excessivo poder \u00e0s empresas de m\u00eddias sociais ou tornar o processo lento demais para ser efetivo (e.g., fake News). Al\u00e9m disso, em v\u00e1rios desses temas, n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias que san\u00e7\u00f5es tenham efeitos positivos em diminuir as amea\u00e7as. Argumento que o paradoxo da quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o regular \u00e9 garantir que as plataformas continuem aplicando as suas pr\u00f3prias regras sem controle externo e facilitar que os grupos pol\u00edticos\/econ\u00f4micos continuem usando mecanismos de dissemina\u00e7\u00e3o de discurso de \u00f3dio ou fake News.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Todo esse cen\u00e1rio, como j\u00e1 dito, pode ser visto como uma nova esperan\u00e7a ou mesmo como uma janela de oportunidade de pol\u00edticas p\u00fablicos, por\u00e9m com um otimismo c\u00e9tico. No caso brasileiro, in\u00fameros pol\u00edticos e entidades governamentais (e.g. TSE) desejam a regula\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 algo que poderia ser dif\u00edcil em outros momentos, logo \u00e9 uma janela de oportunidade. Por outro lado, leis est\u00e3o sendo aprovadas \u00e0s pressas e sem uma discuss\u00e3o suficiente com a sociedade, como foi o caso da PL 2630 aprovada pelo Senado para regular fake News. H\u00e1 ainda o perigo que justamente aqueles que desejam se aproveitar da situa\u00e7\u00e3o anterior proponham regula\u00e7\u00f5es que ainda permitam as pr\u00e1ticas nocivas, afinal grupos pol\u00edticos se beneficiam de tais pr\u00e1ticas. Ent\u00e3o, novamente temos um paradoxo entre uma janela de oportunidade para regula\u00e7\u00e3o e um temor por regula\u00e7\u00f5es inadequadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Argumento que, no sentido democr\u00e1tico, nunca se debateu tanto sobre o assunto e que diferentes atores (sociedade civil, academia e governos) est\u00e3o em maior intera\u00e7\u00e3o que em outras formas de regula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica (e.g., regula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, que teve poucos avan\u00e7os em d\u00e9cadas). Parece-me que tivemos uma evolu\u00e7\u00e3o neste quesito e que existe sim a chance de se tratar de uma janela de oportunidade. Desde que, claro, mantenham-se o advocacy e a press\u00e3o popular sobre os parlamentares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Agora, independentemente desse contexto brasileiro, a governan\u00e7a da internet tende daqui em diante a sempre ser um mote constante de nossas discuss\u00f5es. Exatamente pelos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos em velocidade surpreendente, acad\u00eamicos e sociedade civil sempre estar\u00e3o discutindo os limites \u00e9ticos e legais para tais usos. Em minha apresenta\u00e7\u00e3o, citei alguns deles a t\u00edtulo de exemplo:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"has-small-font-size\"><li>Desigualdades digitais;<\/li><li>Uso de dados por empresas e governos (vigil\u00e2ncia)<\/li><li>Uso de IA\/modelos de deep learning para decis\u00f5es;<\/li><li>Microtargeting\/propaganda computacional;<\/li><li>Reconhecimento facial; big data<\/li><li>Prote\u00e7\u00e3o de dados pessoais (cidadania digital);<\/li><li>Soberania nacional x leis internacionais;<\/li><li>Bias em todos esses c\u00f3digos e processos;<\/li><li>Regula\u00e7\u00e3o\/transpar\u00eancia algor\u00edtmica.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Assim, chegando ao meu terceiro ponto, isso significa que tanto governo quanto sociedade civil tender\u00e3o a fazer um uso \u201camb\u00edguo\u201d das atuais plataformas, uma esp\u00e9cie de jogo-duplo. Por um lado, eles n\u00e3o podem abandonar as atuais plataformas de m\u00eddias sociais, pois \u00e9 onde as pessoas est\u00e3o. Governos e pol\u00edticos profissionais continuar\u00e3o a fazer uso delas e buscar ganhar publicidade e construir suas imagens por ali, tentando driblar os enquadramentos jornal\u00edsticos. Agentes da sociedade civil continuar\u00e3o a se organizar e convocar eventos pelas atuais redes, a buscar visibilidade para suas agendas, causas e afins. Por outro lado, acredito que ambos precisam estar atentos a outras possibilidades, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de alternativas, de inova\u00e7\u00f5es de software e tamb\u00e9m de iniciativas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Por mais que seja bastante dif\u00edcil de pensarmos em plataformas ou iniciativas p\u00fablicas que possam competir com Google, Facebook e afins, n\u00e3o podemos deixar de buscar as poss\u00edveis inova\u00e7\u00f5es em diferentes n\u00edveis governamentais e, especialmente, pela sociedade civil. Assim, creio que a busca de alternativas tamb\u00e9m possa ser a base de futuros projetos de democracia digital. Aqui, estou falando de laborat\u00f3rios de inova\u00e7\u00e3o (como o <a href=\"https:\/\/labhackercd.leg.br\/\">LabHacker<\/a> no Brasil e os laborat\u00f3rios em Madrid e Barcelona, conforme Santos, Ara\u00fajo, Penteado, 2019), iniciativas de crowdlaw, de crowdsourcing e intelig\u00eancia coletiva, inova\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, consultas p\u00fablicas dial\u00f3gicas, ferramentas que fomentem transpar\u00eancia e dados abertos, instrumentos c\u00edvicos para dialogar ou pressionar os governos. Gastil e Davies (2020) chegam a sugerir um mega investimento do governo norte-americano para criar plataformas p\u00fablicas para concorrem com as privadas (ao exemplo de TVs p\u00fablicas que concorrem com as do mercado). Tenho bastante d\u00favida se tal dire\u00e7\u00e3o funcionaria em qualquer contexto diferente dos Estados Unidos e mesmo no pr\u00f3prio, apesar da ideia de investimento governamental em softwares p\u00fablicos e alternativos n\u00e3o ser ruim em si.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Em suma, a busca por inova\u00e7\u00f5es e por alternativas \u00e0s m\u00eddias sociais atuais n\u00e3o deve parar por nenhum dos atores, enquanto as plataformas atuais devem continuar sendo usadas para suas agendas. Isso \u00e9 o que estou chamando de uso amb\u00edguo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Com base nestas revis\u00f5es e reflex\u00f5es, eu fa\u00e7o algumas conclus\u00f5es para o que eu espero que seja e o que eu recomendo para a literatura de democracia digital (para um pouco sobre o atual estado da arte da literatura, ver Sampaio et al, 2021).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">1) Como j\u00e1 dito, a e-democracia n\u00e3o est\u00e1 morta e, na verdade, nunca esteve num lugar mais central de nossas vidas e no centro do debate democr\u00e1tico.<br>2) A democracia digital est\u00e1 mais conectada que nunca \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica digital. Enquanto para os pesquisadores de Comunica\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica isso pode parecer \u00f3bvio, pode haver maior resist\u00eancia dos estudiosos da Ci\u00eancia Pol\u00edtica, do Campo de P\u00fablicas e mesmo do Direito a tal fato.<br>3) O Direito por sua vez entrou para ficar na discuss\u00e3o, uma vez que as regula\u00e7\u00f5es sempre ser\u00e3o temas centrais da democracia digital.<br>4) Concedendo em um ponto a Albuquerque (2018) e tamb\u00e9m Chadwick (2020), os estudiosos de democracia digital precisam ser mais cr\u00edticos, reconhecer que existem diversos usos n\u00e3o democr\u00e1ticos dos meios digitais e passar a estuda-los.<br>5) Isso significa que o campo da democracia digital precisa ser mais emp\u00edrico e menos normativo, devendo encarar os desafios das democracias atuais e do papel da tecnologia nisso, adotando uma postura mais cr\u00edtica e atenta aos d\u00e9ficits trazidos ou fomentados pelas tecnologias.<br>6) Ao ser mais emp\u00edrica, a pesquisa deve adotar e ser uma l\u00edder no uso de <strong>m\u00e9todos digitais <\/strong>sofisticados, realizando parcerias com entidades governamentais, do terceiro setor, da m\u00eddia e mesmo com as pr\u00f3prias empresas de m\u00eddias sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Esses seis apontamentos ou sugest\u00f5es n\u00e3o devem, entretanto, fazer a democracia digital abandonar a sua raz\u00e3o de existir e seu objetivo prim\u00e1rio. Trata-se tanto de um conceito quanto de um projeto a ser fomentado. A democracia digital existe para pensarmos formas de usarmos a tecnologia para fomentarmos valores democr\u00e1ticos, para <strong>gerarmos melhor democracias<\/strong>, para aumentarmos o poder do cidad\u00e3o frente a outros agentes. Portanto, n\u00e3o <strong>devemos abandonar completamente a normatividade <\/strong>do conceito, pois ele deve sempre existir para orienta\u00e7\u00e3o e sugest\u00f5es de melhorias. Aqui, o segredo est\u00e1 menos em seguir a pesquisa da frustra\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m denota Wilson Gomes, que n\u00e3o encontra na realidade aquilo que a literatura aponta normativamente como ideal e mais usar a normatividade para refor\u00e7ar a import\u00e2ncia de projetos digitais incrementarem valores democr\u00e1ticos, de servirem para frear os abusos que podem vir de governos, corpora\u00e7\u00f5es ou grupos extremistas organizados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Estando ou n\u00e3o em moda, <strong>a democracia digital sempre deve ser uma base <\/strong>para refor\u00e7ar os aspectos democr\u00e1ticos de outros projetos e conceitos de iniciativas digitais, que podem se tornar vazios se n\u00e3o desejarem justamente incrementar a democracia, como governo digital, governan\u00e7a digital, cidades inteligentes, dados abertos e afins. Sem a normatividade da democracia digital, sem o objetivo de trazer ganhos democr\u00e1ticos, muitos conceitos podem apenas incrementar efici\u00eancia governamental e at\u00e9 reduzir os seus impactos pol\u00edticos, como acontece em certas literaturas, como governo digital, dados abertos e, principalmente, cidades inteligentes. N\u00e3o \u00e9 que a melhor entrega de servi\u00e7os ao cidad\u00e3o e a melhor efici\u00eancia de gest\u00e3o sejam pouco, por\u00e9m \u00e9 sempre preciso cuidado para n\u00e3o normalizar esses usos como os \u00fanicos poss\u00edveis. \u00c9 justamente neste ponto que a democracia digital pode ajudar a dar robustez a outros projetos e processos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Neste sentido, sustento que, ao exemplo do semin\u00e1rio organizado pela professora Christina Freitas, \u00e9 preciso aumentar a intera\u00e7\u00e3o entre pesquisadores e promotores de uma s\u00e9rie de iniciativas, que em minha vis\u00e3o buscam fazer, no fundo, a mesma coisa: produzir democracias melhores. Abaixo, eu cito algumas dessas literaturas que muitas vezes n\u00e3o se tocam por partirem de pontos de diferentes, mas que acredito estarem, finalmente, convergindo, dialogando e, consequentemente, produzindo melhores produtos e pesquisas.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"has-small-font-size\"><li>Democracia Digital<\/li><li>e-Participa\u00e7\u00e3o<\/li><li>e-Transpar\u00eancia<\/li><li>Online Deliberation<\/li><li>Civic Tech<\/li><li>Hacktivismo<\/li><li>Governan\u00e7a Digital<\/li><li>Governo Aberto<\/li><li>Parlamento Aberto<\/li><li>Crowdlaw<\/li><li>Intelig\u00eancia Coletiva<\/li><li>Minip\u00fablico<\/li><li>Inova\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica<\/li><li>Institui\u00e7\u00e3o Participativa<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">Finalmente, defendi que \u00e9 <strong>importante n\u00e3o comprar\/disseminar o enquadramento atual de que as m\u00eddias sociais e a internet est\u00e3o destruindo a democracia. <\/strong>\u00c9 importante que governantes e cidad\u00e3os estejam cientes das possibilidades democr\u00e1ticas que podem ser trazidas ainda pelas mesmas ferramentas. Finalizo meu argumento dizendo que mesmo Cass Sustein (2018), um grande c\u00e9tico sobre o uso da internet para fins democr\u00e1ticos, foi capaz de admitir que estamos melhor hoje, com as m\u00eddias sociais, que antes. <strong>Afinal, a internet, em geral, e as m\u00eddias sociais atuais, em espec\u00edfico,<\/strong> <strong>n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1ticas<\/strong>. A internet j\u00e1 foi muito diferente, j\u00e1 passou por in\u00fameras fases e certamente ainda mudar\u00e1 in\u00fameras vezes pelas evolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e pelas a\u00e7\u00f5es humanas. Como o pr\u00f3prio conclui, h\u00e1 espa\u00e7o, ent\u00e3o, para que as m\u00eddias sociais sejam revistas e melhoradas. A democracia digital pode oferecer caminhos para tais mudan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"has-small-font-size\"><li>ALBUQUERQUE, Afonso. A comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica depois do golpe: notas para uma agenda de pesquisa. <em>Compol\u00edtica<\/em>, v. 8, n. 2, p. 171-206, 2018.<\/li><li>ANSTEAD, Nick. The future of political communication research. In: <em>A Research Agenda for Digital Politics<\/em>. Edward Elgar Publishing, 2020.<\/li><li>CHADWICK, Andrew. <em>The hybrid media system:<\/em> Politics and power. Oxford University Press, 2017.<\/li><li>CHADWICK, Andrew. Four challenges for the future of digital politics research. In<em>: A Research Agenda for Digital Politics<\/em>. Edward Elgar Publishing, 2020.<\/li><li>DUTTON, William H. Introduction to A Research Agenda for Digital Politics. <em>A Research Agenda for Digital Politics<\/em>. Edward Elgar Publishing, 2020.<\/li><li>GASTIL, John; DAVIES, Todd. Digital Democracy: Episode IV\u2014A New Hope*: How a Corporation for Public Software Could Transform Digital Engagement for Government and Civil Society. <em>Digital Government: Research and Practice<\/em>, v. 1, n. 1, p. 1-15, 2020.<\/li><li>GOMES, Wilson; DOURADO, Tatiana. Fake news, um fen\u00f4meno de comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre jornalismo, pol\u00edtica e democracia. <em>Estudos em Jornalismo e M\u00eddia<\/em>, v. 16, n. 2, p. 33-45, 2019.<\/li><li>KUEHN, Kathleen M.; SALTER, Leon A. Assessing digital threats to democracy, and workable solutions: a review of the recent literature. <em>International Journal of Communication<\/em>, v. 14, p. 22, 2020.<\/li><li>MILLER, Michael L.; VACCARI, Cristian. Digital threats to democracy: comparative lessons and possible remedies. <em>The International Journal of Press\/Politics<\/em>, v. 25, n. 3, p. 333-356, 2020.<\/li><li>SAMPAIO, R.; FREITAS, C.; KLEINA, N.; MARIOTO, D.; NICHOLS, B.; BORGES, T.; ALISON, M.; BOZZA, G.; HAUSEN, V. Democracia Digital no Brasil: mapeamento e an\u00e1lise de artigos publicados em peri\u00f3dicos entre 1999-2018. <em>Boletim de An\u00e1lise Pol\u00edtico-Institucional<\/em>, v. 25, p. 23-32, 2021.<\/li><li>SANTOS, Marcelo; ARA\u00daJO, Rafael; PENTEADO, Claudio. Laborat\u00f3rio de Inova\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 e cidadania 2.0: um estudo de caso dos modelos Media Lab Prado e Citi Lab Barcelona. In: 43\u00ba Encontro Anual da Anpocs, 2019, Caxamb\u00fa. <em>Anais do 43\u00ba Encontro Anual da ANPOCS,<\/em> de 21 a 25 de outubro de 2019. Caxamb\u00fa: ANPOCS, 2019. p. 1-30.<\/li><li>SUNSTEIN, Cass. As m\u00eddias sociais s\u00e3o boas ou ruins para a democracia<em>?. SUR -Revista Internacional de Direitos Humanos<\/em>, S\u00e3o Paulo, v.15, e. 27, p. 85-92, jul., 2018.<\/li><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No III Simp\u00f3sio Internacional em Inova\u00e7\u00e3o e Governan\u00e7a Digital, fiz uma apresenta\u00e7\u00e3o tentando abordar o futuro do projeto e do conceito da democracia digital e aqui gostaria de fazer um resumo da mesma. 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